Relato Pessoal

I – Minha Infância e a Tragédia Vivenciada no Grande ABC

Ainda criança, cursando o que hoje denominamos Quinto Ano do Ensino Fundamental, vivi o acontecimento que definiu minha trajetória.

Dimas, colega de sala e vizinho de rua, morava de frente para minha casa e residia nos fundos de uma agência do Banco Noroeste, pois seu pai era o guarda noturno da instituição. De família simples, honesta e trabalhadora, era diariamente humilhado durante a chamada oral da tabuada.

Nossa professora, além de expô-lo diante da turma, dava murrinhos em sua cabeça e, em outras ocasiões, batia com uma régua grande de madeira em seus ombros e na cabeça. Seu caderno jamais foi verificado por ela.

Após mais um dia de exposição pública, depois da prova oral, voltou para casa. Enquanto sua mãe, que era analfabeta, finalizava o almoço e seu pai dormia, pegou escondido a arma pertencente ao Banco Noroeste e tirou a própria vida.

A polícia, ao chegar à residência de Dimas, encontrou em seu caderno inúmeras páginas repetindo a mesma frase:
Professora, eu não sou burro. Professora, eu não sou gordo.

Fui uma das colegas que carregaram o caixão de Dimas até o sepultamento. Naquele percurso silencioso, pesado demais para uma criança, tomei uma decisão definitiva: eu seria professora.

Na prática pedagógica daquela professora não havia amor. A escola que deveria nutrir não pode humilhar, nem destruir vidas. A decisão nasceu ali.

Fui crescendo, e o grande desejo de meus pais era que eu cursasse Direito. Meu pai completava dizendo que eu não poderia parar de estudar até me tornar juíza.


II – Formação, Trabalho e Experiência

Quando eu tinha cerca de dezessete anos, mudamo-nos para o interior do Estado de São Paulo.

Concluí dois cursos de Ensino Médio concomitantemente: Magistério e Técnico em Estatística.

Fiz meio ano de cursinho no Objetivo, na tentativa de ingressar no curso de Direito, já sabendo de antemão que vários conteúdos exigidos no vestibular não haviam sido estudados nem no Magistério nem no Técnico em Estatística.

Conclusão: não passei no primeiro vestibular de Direito.

Prestei vestibular para Ciências Econômicas, fui aprovada e ingressei no curso de Economia.

No Instituto Espírita Nosso Lar (IELAR), que também mantinha um grande hospital filantrópico, estava sendo divulgado um projeto social que necessitava de profissionais voluntários para atuação na periferia, em área de terra, na chamada Zona do Meretrício, em São José do Rio Preto. Buscavam-se médicos ginecologistas, dentistas, cabeleireiras, costureiras e outros profissionais para trabalho voluntário com as mulheres que ali moravam e atuavam como prostitutas.

Diversos profissionais aceitaram o desafio e incluíram o voluntariado em suas agendas. Nenhuma professora da cidade se candidatou.

Fui a única professora voluntária naquele local.

Alfabetizei mulheres e acompanhei seus filhos no reforço escolar. Em dois anos, aquela realidade foi profundamente transformada, com mulheres sendo inseridas no mercado de trabalho digno e elevando sua autoestima.

Concomitantemente, fui contratada para trabalhar no Centro de Processamento de Dados do Bradesco. Fui promovida a cargo de chefia para atuar no período noturno, tornando-me a primeira mulher do interior paulista naquele setor predominantemente masculino.

Quando fui transferida para o período da noite e madrugada, precisei encerrar o trabalho voluntário no IELAR, realizado aos sábados pela manhã, e também interromper a Faculdade de Economia, oferecida apenas no período noturno.

Atuei posteriormente na Caixa Econômica Estadual e no Banco do Brasil, inclusive formando servidores aprovados em concurso público para a implantação do Centro de Processamento de Dados do Banco do Brasil.

Solicitei exoneração do meu cargo na Caixa Econômica Estadual quando decidi casar e constituir família.

Faço parte da primeira geração da Educação a Distância no Brasil, mediada pelos Correios. As instituições de ensino superior enviavam materiais impressos para estudo, e as avaliações manuscritas eram devolvidas via postal, com aviso de recebimento.

Iniciei formação continuada na Universidade de Brasília, consolidando academicamente a decisão tomada na infância.


III – Maternidade, Empreendedorismo e Posse em Cargo Público

Após minhas filhas — a mais velha completar oito anos e a caçula quatro anos — retomei o trabalho voluntário como professora em projetos sociais, em São José do Rio Preto, no ensino presencial.

Quando a mais velha completou dez anos e a caçula seis anos, abri uma loja de presentes e decoração. Era um empreendimento próspero, com clientela consolidada. O voluntariado continuava.

Durante esse período, muitas pessoas passaram a buscar minha escuta em situações pessoais delicadas de diferentes ordens. Diante dessa realidade, prestei vestibular para Psicologia e fui aprovada. O curso era oferecido no período diurno. Como não poderia me afastar da gestão da empresa, especialmente em razão da ausência de funcionária por motivo de doença, precisei interromper o curso.

Mantive a loja por dez anos e alguns meses.

E a saga continua.

Quando soube do concurso público da Prefeitura de Mirassol, tomei uma decisão definitiva. Não repus estoque. Não investi em novas coleções. Fechei a empresa.

Assumi o cargo de professora regente de classe no Município de Mirassol.

No período da tarde, mantive trabalho voluntário na modalidade à distância, em organizações não governamentais sem fins lucrativos, em diferentes regiões do Brasil.

Ao ingressar na rede municipal, já trazia uma trajetória marcada por voluntariado social, experiência institucional, formação continuada e Educação a Distância.

A decisão tomada na infância permanecia inalterada: ser professora, ainda que isso significasse não realizar o sonho de meu amado pai de me ver juíza.

A escola existe para nutrir. Quando se afasta do cuidado, do respeito e do amor à própria profissão, pode ceifar vidas, como ocorreu com meu amiguinho Dimas.

Roseli Maria de Cuzzo Cury