Contribuições teóricas e implicações éticas para a educação no século XXI
Texto de Abertura Institucional
Este texto inaugura a base conceitual do OABCD Letrando.
Nele se estabelecem os fundamentos teóricos que orientam nossa compreensão de formação humana, consciência crítica e responsabilidade ética diante da vida, da sociedade e do planeta Terra.
Mais do que distinguir termos, este artigo delimita um posicionamento formativo: educar não é apenas transmitir conteúdos, mas formar sujeitos conscientes, críticos e comprometidos com a dignidade humana e com a sustentabilidade da vida.
Introdução
No campo educacional brasileiro, especialmente a partir da segunda metade do século XX, tornou-se imprescindível distinguir conceitualmente letrar, letramento e letrando. Embora frequentemente utilizados como sinônimos, esses termos designam dimensões distintas — ainda que interdependentes — do processo formativo humano mediado pela linguagem.
Diferenciar tais conceitos exige diálogo com a psicogênese da língua escrita, com a pedagogia crítica e com as abordagens socioculturais do letramento, ampliando a reflexão para seus desdobramentos éticos, ambientais e civilizatórios.
Ao assumir essa distinção, o OABCD Letrando posiciona-se no campo de uma educação que compreende a linguagem como instrumento de leitura do mundo, de transformação social e de construção permanente da consciência.
1. Letrar: Ação Pedagógica de Inserção Crítica na Cultura Escrita
O verbo letrar refere-se à ação educativa que promove a inserção do sujeito na cultura escrita.
A partir dos estudos de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, compreende-se que a criança não aprende a escrever por simples memorização de letras e sílabas. Ela formula hipóteses, testa, reorganiza e reconstrói seu pensamento acerca do sistema de escrita. A alfabetização, portanto, configura-se como processo cognitivo ativo.
Paulo Freire amplia essa perspectiva ao afirmar que a leitura da palavra está indissociavelmente ligada à leitura do mundo. Letrar, nesse sentido, não significa apenas ensinar códigos gráficos, mas formar sujeitos capazes de interpretar criticamente a realidade.
Assim, letrar envolve:
- construção cognitiva do sistema de escrita;
- mediação pedagógica intencional;
- formação inicial de consciência crítica.
Trata-se de ação educativa estruturante.
2. Letramento: Condição Sociocultural da Escrita
O conceito de letramento consolida-se no Brasil a partir das contribuições de Magda Soares, que diferencia alfabetização, entendida como domínio do sistema de escrita, de letramento, compreendido como uso social significativo da leitura e da escrita.
O letramento desloca o foco da técnica para a prática social.
Desse modo, letramento refere-se à:
- participação ativa na cultura escrita;
- prática social contextualizada;
- fenômeno histórico e cultural;
- exercício da cidadania.
Trata-se de condição sociocultural estruturante.
3. Letrando: Processo Permanente de Formação Humana
É neste ponto que a compreensão se amplia.
Se letrar representa ação pedagógica e letramento configura condição sociocultural, letrando designa movimento contínuo de formação. Não corresponde a uma etapa concluída, mas a um processo permanente de revisão, reconstrução e transformação.
Letrando significa permanecer em construção ao longo da vida.
A perspectiva freireana da educação como prática inacabada sustenta essa compreensão: o ser humano é inacabado e, por isso, permanentemente aprendente.
Moacir Gadotti amplia essa reflexão ao defender uma educação voltada para a sustentabilidade e para a cidadania planetária. Educar implica formar sujeitos conscientes de sua responsabilidade diante do planeta.
André Trigueiro ressalta que a informação somente se converte em transformação quando altera comportamentos cotidianos.
Ailton Krenak aprofunda essa dimensão ao afirmar que precisamos reconhecer que não estamos fora da natureza, mas somos parte dela. A crise contemporânea é civilizatória e exige revisão de valores e modos de habitar o mundo.
Edgar Morin, ao propor os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, evidencia que educar no século XXI implica enfrentar incertezas, compreender a complexidade humana, desenvolver a compreensão mútua e sustentar uma ética do gênero humano.
Michèle Sato contribui ao defender uma Educação Ambiental fundamentada na complexidade, na sensibilidade e na ética do cuidado, integrando razão, emoção e responsabilidade coletiva.
Nesse horizonte, letrando ultrapassa a escrita e alcança:
- consciência ética;
- responsabilidade ambiental;
- revisão crítica de práticas sociais;
- construção intergeracional do futuro;
- compromisso com o bem-estar comum.
Letrando implica reconhecer equívocos do passado, agir com responsabilidade no presente e projetar escolhas mais justas e sustentáveis para o futuro, sempre em favor da vida.
Considerações Finais: Fundamento Epistemológico do OABCD Letrando
A distinção entre letrar, letramento e letrando revela três dimensões complementares da formação humana mediada pela linguagem.
Letrar constitui ação pedagógica.
Letramento configura condição sociocultural.
Letrando representa formação permanente.
Como formação permanente, o letrando exige reflexão contínua, revisão de hábitos, transformação de comportamentos e busca constante de alternativas mais justas e sustentáveis.
Não se trata apenas de dominar códigos ou participar de práticas sociais de leitura e escrita. Trata-se de assumir postura ética diante da vida.
As transformações estruturais começam no micro — nas escolhas individuais, nas atitudes cotidianas — e se expandem para o macro, alcançando a sociedade e o planeta.
Letrando é respeitar a todos, independentemente de raça, crença ou orientação sexual, não apenas por existirem dispositivos legais que assegurem direitos, mas porque o respeito constitui fundamento da dignidade humana.
Somos todos diferentes: diferentes cores, diferentes saberes, diferentes saberes. Essa diversidade NÃO fragmenta; fortalece.
Letrando é compromisso diário com a vida em sua totalidade.
É agir com consciência, responsabilidade e amor por tudo, manifestado concretamente nas escolhas cotidianas.
Este texto constitui o fundamento epistemológico do OABCD Letrando e orienta as reflexões que serão aprofundadas nos desdobramentos formativos deste projeto.
A cada dia vivido, ampliamos nossa capacidade de letrar e, simultaneamente, aprofundamos o movimento contínuo do letrando que nos transforma.
Referências Bibliográficas
FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23. ed. São Paulo: Cortez, 1989.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GADOTTI, Moacir. Educação para a sustentabilidade: uma contribuição à Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.
SATO, Michèle. Educação ambiental: pesquisa e desafios. Porto Alegre: Artmed, 2003.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998. TRIGUEIRO, André. Mundo sustentável 2: novos rumos para um planeta em crise. São Paulo: Globo, 2012
Profa. Roseli
Fundadora do OABCD Letrando
Formação humana com amor por tudo e por todos.



